Educação Financeira: Por Que Tanta Gente Chega à Vida Adulta Sem Saber Lidar com o Dinheiro?

Muita gente chega à vida adulta com dúvidas sobre dinheiro. Entenda por que a educação financeira é um desafio no Brasil e como enfrentar essa realidade atual.

Por: Carlo Frederico Leite

10/1/202616 min read

imagem da palavra educação financeira
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Educação Financeira: Por Que Tanta Gente Chega à Vida Adulta Sem Saber Lidar com o Dinheiro?

Muita gente chega à vida adulta com dúvidas sobre dinheiro. Entenda por que a educação financeira é um desafio no Brasil e como enfrentar essa realidade atual.

Existe uma coisa que me chama atenção sempre que converso com alguém sobre dinheiro: muitas pessoas chegam à vida adulta acreditando que deveriam saber lidar melhor com a própria vida financeira, mas nunca tiveram uma oportunidade real de aprender.

E não estou falando apenas de investimentos.

Estou falando daquela situação bastante comum em que alguém recebe o salário, paga algumas contas, usa o cartão, faz uma compra parcelada, talvez tenha alguma dívida e, no fim do mês, percebe que não consegue explicar direito para onde foi boa parte do dinheiro. Quando aparece uma decisão maior, como um financiamento, uma troca de emprego, um empréstimo ou a possibilidade de começar a investir, vem a insegurança.

A pessoa olha para aquela decisão e pensa: “Será que estou fazendo certo?”

Essa dúvida não deveria causar vergonha.

Dinheiro é uma parte enorme da vida adulta, mas ninguém nasce sabendo lidar com ele. E, apesar de isso parecer óbvio, ainda existe uma expectativa estranha de que, em algum momento, simplesmente aprendamos sozinhos.

É como se o primeiro salário viesse acompanhado de um manual invisível.

Não vem.

O salário chega. O cartão aparece. O crédito é oferecido. As contas começam. A publicidade aumenta. Os aplicativos facilitam tudo. E a pessoa precisa tomar decisões financeiras antes mesmo de compreender completamente o que está fazendo.

É nesse ponto que a educação financeira deixa de ser um assunto bonito para falar em uma escola ou em uma campanha e passa a ser uma necessidade concreta.

A vida financeira começa antes de a pessoa perceber

Pense em alguém que está entrando no mercado de trabalho pela primeira vez.

Até pouco tempo atrás, boa parte das decisões relacionadas a dinheiro talvez estivesse nas mãos dos pais. De repente, existe uma renda própria. A pessoa começa a pagar algumas despesas, descobre que pode comprar determinadas coisas com o próprio dinheiro e também percebe que o mercado está cheio de ofertas esperando por ela.

O cartão chega.

O parcelamento parece conveniente.

O limite parece maior do que aquilo que ela imaginava conseguir gastar.

Um banco oferece crédito.

Outro oferece uma conta com benefícios.

Uma loja oferece desconto para pagamento imediato.

Um aplicativo apresenta uma possibilidade de investimento.

Tudo acontece muito rápido.

E é justamente aí que aparece uma contradição interessante: nunca foi tão fácil acessar serviços financeiros e, ao mesmo tempo, isso não significa que as pessoas tenham aprendido na mesma velocidade a tomar decisões financeiras.

A tecnologia diminuiu o caminho entre a vontade e a ação. O conhecimento, entretanto, continua precisando de tempo.

Uma pessoa pode aprender a fazer uma transferência instantânea em poucos minutos. Isso não significa que ela compreenda o efeito de assumir uma dívida que vai comprometer seu orçamento pelos próximos dois anos.

Pode aprender a abrir uma conta de investimentos rapidamente. Isso também não significa que saiba avaliar risco, prazo, liquidez ou custos.

O acesso ficou rápido.

Aprender continua sendo um processo.

O problema aparece quando precisamos tomar uma decisão de verdade

É fácil parecer que sabemos alguma coisa sobre dinheiro enquanto estamos apenas ouvindo explicações.

A dificuldade aparece quando a decisão passa a ser nossa.

Imagine, por exemplo, que alguém receba uma proposta de financiamento. Na conversa comercial, aparecem taxa, prazo, parcela, entrada e valor total. Tudo parece relativamente simples até a pessoa perceber que está assumindo um compromisso que poderá acompanhá-la durante vários anos.

Nesse momento, não basta saber que “juros são importantes”.

É preciso conseguir olhar para aquela proposta e entender o que realmente está sendo contratado.

A mesma coisa acontece com investimentos. Saber que um produto rende determinado percentual não resolve a decisão. É necessário entender de onde vem aquela rentabilidade, quais riscos existem, quando o dinheiro poderá ser retirado e se aquele investimento combina com o objetivo que a pessoa tem.

Até mesmo uma situação aparentemente banal, como escolher entre pagar uma compra à vista ou parcelar, envolve raciocínio financeiro.

O problema é que quase ninguém recebe treinamento específico para essas situações.

A gente aprende muita coisa para entrar na vida adulta. Aprende a ler, escrever, fazer contas, interpretar textos e resolver problemas. Mas, quando o assunto é administrar o próprio dinheiro, muitas pessoas acabam aprendendo na prática, pagando o preço dos próprios erros enquanto descobrem como as coisas funcionam.

E isso ajuda a explicar por que educação financeira não pode ser tratada como um assunto secundário.

Os números mostram que essa dificuldade existe

O Banco Central vem medindo o letramento financeiro da população brasileira justamente porque conhecimento, atitude e comportamento diante do dinheiro são aspectos importantes para a cidadania financeira.

Na pesquisa apresentada pelo Banco Central, o índice médio de letramento financeiro ficou em 59,6 pontos em uma escala de 0 a 100. Quando o foco foi exclusivamente o conhecimento financeiro, a média ficou em 53 pontos. Um dos resultados mais expressivos apareceu nas questões envolvendo juros: 87% erraram a questão de cálculo de juros simples.

Esse número não significa que quase toda a população seja incapaz de cuidar da própria vida financeira.

Seria exagerado interpretar a pesquisa dessa maneira.

Uma pessoa pode não conseguir fazer determinado cálculo e ainda assim pagar suas contas em dia, controlar despesas e tomar decisões razoáveis. O que o resultado revela é uma dificuldade objetiva com conhecimentos financeiros que fazem parte de situações bastante comuns.

E existe outro dado que ajuda a colocar o problema em perspectiva: o relatório do Banco Central também aponta limitações importantes de resiliência financeira, mostrando que uma parcela significativa da população teria dificuldade para absorver uma despesa inesperada equivalente à renda mensal sem recorrer a empréstimos ou ajuda de terceiros.

É aqui que o assunto começa a ficar mais próximo da vida real.

Porque educação financeira não deveria servir apenas para ensinar alguém a escolher investimentos.

Antes disso, ela precisa ajudar a pessoa a compreender o próprio orçamento, reconhecer o custo de uma dívida, construir alguma margem para imprevistos e perceber o impacto das decisões que toma hoje sobre o dinheiro que terá disponível amanhã.

Quando chegamos aos jovens, a preocupação aumenta

A escola é um dos lugares onde essa discussão poderia começar mais cedo.

Não porque o aluno precise sair do ensino médio sabendo montar uma carteira de investimentos, mas porque já está vivendo em um ambiente financeiro muito antes de completar 18 anos.

O jovem compra pela internet, acompanha publicidade nas redes sociais, conhece marcas, recebe influência de criadores de conteúdo, observa o comportamento financeiro dos adultos e, em muitos casos, começa a ganhar algum dinheiro próprio.

O PISA 2022, avaliação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mediu justamente a alfabetização financeira de estudantes de 15 anos. O Brasil alcançou 416 pontos e cerca de 45% dos estudantes ficaram abaixo do nível 2, considerado o patamar básico de proficiência financeira.

O dado merece atenção, mas também precisa ser interpretado corretamente.

Ele não significa que 45% dos jovens brasileiros sejam incapazes de lidar com dinheiro. A avaliação mede determinadas competências financeiras em uma população específica, dentro de uma metodologia internacional.

O que ela mostra é que uma parcela grande dos estudantes ainda não havia alcançado o nível de conhecimento necessário para lidar com determinadas decisões financeiras mais básicas.

E isso acontece justamente antes de uma fase em que as decisões começam a ganhar consequências maiores.

Pouco depois dessa idade, muitos desses jovens estarão escolhendo cursos, procurando emprego, recebendo salário, utilizando crédito, pagando aluguel ou assumindo despesas que antes pertenciam à família.

A vida adulta não espera o conhecimento ficar completo.

Ela começa mesmo assim.

Talvez tenhamos ensinado as pessoas a usar dinheiro sem ensinar suficientemente o que existe por trás dele

Essa é uma diferença que merece atenção.

Hoje uma pessoa sabe fazer Pix, utilizar uma carteira digital, comprar pela internet ou abrir uma conta bancária com uma facilidade que seria difícil imaginar algumas décadas atrás.

O avanço é importante.

O sistema financeiro ficou mais acessível, mais digital e, em muitos aspectos, mais conveniente. A própria ANBIMA mostra como essa transformação avançou: na pesquisa de 2026, 36% da população brasileira declarou possuir algum investimento financeiro, enquanto 60,6 milhões de pessoas eram consideradas investidores ativos.

Mas existe uma diferença entre participar do sistema financeiro e compreendê-lo.

É possível ter uma conta bancária sem saber organizar o orçamento.

É possível possuir cartão de crédito sem compreender o custo de uma dívida.

É possível investir sem entender exatamente o risco assumido.

É possível ganhar mais dinheiro e continuar sem construir patrimônio.

É possível até pesquisar bastante sobre finanças e ainda assim tomar decisões ruins quando o emocional entra na história.

Por isso, quando falamos de educação financeira, eu prefiro pensar menos na quantidade de produtos que uma pessoa conhece e mais na qualidade das decisões que ela consegue tomar.

A pergunta geralmente começa antes do investimento

Existe uma descoberta recente que considero especialmente interessante para entender esse comportamento.

Um estudo da Planejar, elaborado pela Timelens e divulgado em setembro de 2026, analisou bilhões de perguntas relacionadas ao planejamento financeiro feitas na internet ao longo de cinco anos. O levantamento identificou que 76% das dúvidas buscavam resolver uma situação ou alcançar um objetivo, enquanto apenas 15% já começavam mencionando um produto financeiro específico.

Isso diz bastante sobre como as pessoas realmente procuram ajuda.

Quando alguém está preocupado com dinheiro, normalmente não começa pensando em uma sigla financeira.

Existe uma situação concreta antes disso.

Pode ser uma dívida que cresceu mais do que deveria. Pode ser a dificuldade de organizar o salário. Pode existir um projeto importante que parece distante porque a pessoa não consegue guardar dinheiro. Pode haver simplesmente aquela sensação de que os anos estão passando e nada está sendo construído.

O produto aparece depois, quando aparece.

E essa ordem é importante.

Se alguém está tentando resolver um problema financeiro, oferecer imediatamente um produto pode significar pular justamente a parte mais importante da conversa: entender o que está acontecendo.

Educação financeira começa quando a pessoa consegue olhar para a própria realidade e compreender o que precisa ser resolvido.

É por isso que informação sozinha não basta

Nós nunca tivemos acesso a tanta informação financeira.

Basta pesquisar um termo para encontrar vídeos, artigos, podcasts, cursos, calculadoras, simuladores e opiniões de pessoas diferentes.

O problema é que informação disponível não é a mesma coisa que conhecimento construído.

Imagine alguém pesquisando o que é o Certificado de Depósito Bancário (CDB). Em poucos minutos encontrará uma definição. Talvez descubra que existem CDBs com diferentes prazos e formas de remuneração. Pode até encontrar comparações entre produtos.

Mas ainda existe uma pergunta que nenhuma definição genérica consegue responder sozinha: “O que isso significa para a minha vida?”

A pessoa precisa relacionar a informação ao objetivo que possui.

Se aquele dinheiro é para uma emergência, o prazo e a liquidez ganham importância. Se existe um objetivo de longo prazo, a análise pode ser diferente. Se a pessoa possui dívidas caras, talvez a prioridade nem seja investir naquele momento.

A informação é o começo.

A capacidade de interpretar aquela informação dentro da própria realidade é que transforma conhecimento em decisão.

Educação financeira também não pode virar uma competição para ver quem sabe mais

Às vezes, o universo financeiro cria uma sensação desnecessária de que existe uma espécie de ranking de conhecimento.

Quem conhece mais siglas parece mais preparado.

Quem acompanha o mercado diariamente parece mais informado.

Quem fala sobre ações, fundos, dividendos e economia parece estar em outro nível.

Mas administrar dinheiro não é um concurso.

Uma pessoa que consegue organizar sua renda, evitar dívidas que não consegue pagar e construir lentamente uma reserva pode estar fazendo um trabalho financeiro muito mais importante para sua realidade do que alguém que conhece dezenas de investimentos, mas vive sem nenhuma margem para emergências.

Conhecimento técnico tem valor.

Só que ele precisa estar a serviço da vida.

O objetivo não deveria ser transformar cada brasileiro em especialista no mercado financeiro. O objetivo deveria ser fazer com que as pessoas tenham condições de compreender as escolhas que estão diante delas.

Isso muda bastante o jeito de ensinar.

Em vez de começar sempre pelo produto, podemos começar pelo problema.

Em vez de perguntar qual investimento rende mais, podemos perguntar para que serve aquele dinheiro.

Em vez de tratar uma dívida apenas como um número, podemos olhar para o orçamento que está sendo comprometido por ela.

Em vez de falar apenas sobre aumentar patrimônio, podemos conversar sobre a capacidade de construir estabilidade ao longo do tempo.

É uma educação financeira muito mais próxima da vida.

E existe uma parte dessa história que não pode ser ignorada: comportamento

Dinheiro não é matemática pura.

Se fosse, bastaria ensinar porcentagem e juros e o problema estaria resolvido.

Só que pessoas compram quando estão ansiosas, parcelam quando estão tentando manter um padrão de vida, evitam olhar para a conta bancária quando estão com medo, gastam para acompanhar outras pessoas e, muitas vezes, tomam decisões financeiras influenciadas por experiências familiares.

Nenhuma dessas coisas desaparece porque alguém aprendeu a calcular juros compostos.

É por isso que educação financeira precisa conversar também com comportamento.

Uma pessoa pode saber exatamente que deveria guardar dinheiro e ainda encontrar dificuldade para fazer isso todos os meses.

Não necessariamente porque não entendeu a importância da reserva, mas porque existe uma distância entre compreender uma decisão e conseguir transformá-la em hábito.

Esse espaço entre conhecimento e comportamento é onde muita coisa acontece.

E talvez seja justamente aí que os conteúdos financeiros precisem ser mais humanos.

Não adianta falar com alguém como se todo problema financeiro fosse simplesmente resultado de falta de disciplina.

Existem desemprego, renda insuficiente, doenças, separações, emergências familiares, mudanças profissionais e uma série de acontecimentos que podem alterar completamente uma vida financeira.

Educação financeira não deve servir para culpar quem está em dificuldade.

Deve servir para ampliar a capacidade de compreensão e de escolha dentro das circunstâncias possíveis.

O acesso aumentou. A responsabilidade de ensinar também precisa aumentar

Quando uma decisão financeira está distante, existe tempo para pensar.

Quando ela aparece na tela do celular e pode ser contratada em poucos segundos, o cenário muda.

Isso vale para crédito, compras, investimentos e praticamente qualquer serviço financeiro digital.

A conveniência é positiva, mas ela também torna o conhecimento mais importante.

Quanto mais fácil ficou acessar alguma coisa, menos razoável é imaginar que apenas o acesso resolverá o problema.

Uma pessoa precisa saber o que está contratando antes de contratar.

Precisa entender que limite de crédito não é renda.

Precisa perceber que rentabilidade passada não garante resultado futuro.

Precisa reconhecer que uma parcela aparentemente pequena pode comprometer o orçamento por muito tempo.

Precisa saber que uma reserva financeira existe justamente para evitar que todo imprevisto vire uma dívida.

Essas coisas parecem simples depois que aprendemos.

Antes disso, não são.

Talvez seja por isso que tanta gente só começa a aprender depois de errar

Essa é uma das partes que mais me incomodam.

Muitas pessoas aprendem sobre juros depois de pagar juros.

Aprendem sobre orçamento depois de passar por um período de aperto.

Aprendem sobre reserva depois de enfrentar uma emergência sem dinheiro guardado.

Aprendem sobre planejamento depois de perceber que uma decisão tomada alguns anos antes está limitando o presente.

Não existe problema em aprender com os próprios erros.

Todos nós fazemos isso em algum momento.

O problema aparece quando a sociedade aceita que esse seja praticamente o único método disponível.

Educação deveria permitir que algumas dessas lições fossem aprendidas antes de o erro se tornar caro.

É muito melhor compreender como funciona o crédito antes de assumir uma dívida complicada do que descobrir a resposta olhando para uma fatura que não consegue pagar.

É melhor aprender o efeito dos juros antes de entrar no rotativo do cartão.

É melhor entender a importância de uma reserva antes de precisar dela.

É melhor conhecer os princípios básicos de investimento antes de colocar dinheiro em alguma coisa que não compreendemos.

Aprender antes não elimina todos os erros.

Mas pode reduzir alguns deles.

E o adulto que não aprendeu ainda?

Aqui eu gostaria de fazer uma pausa porque existe uma mensagem importante.

Se você está lendo isso e percebeu que não entende muito sobre dinheiro, não transforme essa constatação em culpa.

Ela pode ser simplesmente o começo de uma mudança.

Talvez você nunca tenha aprendido a organizar um orçamento porque ninguém ensinou.

Talvez sua família também não tivesse esse conhecimento.

Talvez você tenha começado a trabalhar muito cedo e precisado aprender tudo enquanto sobrevivia à rotina.

Talvez tenha aprendido algumas coisas na prática e outras ainda estejam confusas.

Tudo bem.

Educação financeira não é uma prova que você deveria ter terminado aos 18 anos.

É um processo.

Aos 20, você pode estar tentando entender salário e crédito. Aos 30, talvez esteja pensando em patrimônio e família. Aos 40, os objetivos podem mudar novamente. Mais tarde, aposentadoria, sucessão e proteção financeira podem ganhar espaço.

O conhecimento acompanha as perguntas que a vida vai fazendo.

E não existe vergonha nenhuma em começar agora.

O que realmente significa saber lidar com dinheiro?

Para mim, não é decorar uma lista de investimentos.

Também não é acompanhar o mercado todos os dias.

Não é saber todas as siglas.

Não é conseguir discutir economia por horas.

Saber lidar com dinheiro começa quando uma pessoa consegue olhar para a própria realidade sem fugir dela.

Ela sabe quanto ganha e tem alguma noção de quanto precisa para manter sua vida funcionando. Consegue perceber quando uma compra cabe ou não cabe no orçamento. Entende que uma dívida possui um custo além do valor que aparece inicialmente. Sabe que uma emergência pode acontecer e que ter alguma reserva muda completamente a forma de enfrentá-la.

Com o tempo, essa mesma pessoa pode aprender sobre investimentos, seguros, aposentadoria, impostos, crédito, empreendedorismo e patrimônio.

Mas existe uma base antes de tudo isso.

A base é consciência.

Depois vem o conhecimento.

E, aos poucos, conhecimento e comportamento começam a trabalhar juntos.

O Brasil já avançou, mas ainda existe muito espaço para aprender

Não seria justo dizer que nada está sendo feito.

A educação financeira ganhou espaço em políticas públicas, escolas, instituições financeiras, organizações da sociedade civil e projetos educacionais. A própria existência de pesquisas nacionais sobre letramento financeiro mostra que o assunto passou a ser tratado com mais atenção.

O acesso financeiro também cresceu.

Os investimentos chegaram a uma parcela maior da população. Os serviços digitais se espalharam. O sistema financeiro ficou mais acessível.

Mas os números mostram que ainda existe uma distância importante entre acesso e preparo.

A ANBIMA encontrou 36% da população com algum investimento financeiro e 107,7 milhões de pessoas que ainda não investiam em 2025. Ao mesmo tempo, seu levantamento mostrou que um terço dos brasileiros não tinha reserva financeira para gastos imprevistos.

Esses dados não precisam ser vistos como uma fotografia de fracasso.

Podem ser vistos como um retrato de um país em transformação.

Mais pessoas estão entrando no sistema financeiro, e isso cria uma necessidade ainda maior de ensinar como navegar por ele.

Quanto maior o acesso, maior precisa ser a capacidade de compreender.

Educação financeira deveria ajudar a pessoa a fazer perguntas melhores

Talvez esse seja um dos resultados mais importantes de uma boa educação financeira.

Depois de aprender, a pessoa não necessariamente passa a ter todas as respostas.

Ela começa a fazer perguntas melhores.

Antes de aceitar um crédito, pergunta quanto vai pagar no total.

Antes de investir, pergunta para que aquele dinheiro será usado.

Antes de comprar parcelado, olha para o impacto da parcela no orçamento.

Antes de seguir uma recomendação da internet, procura entender de onde veio aquela informação.

Antes de comparar sua vida financeira com a de outra pessoa, percebe que não conhece toda a história que existe por trás daquele patrimônio.

Esse tipo de mudança pode parecer pequeno.

Não é.

Uma pessoa que aprende a perguntar antes de decidir já está construindo uma relação diferente com o dinheiro.

E é exatamente esse tipo de autonomia que eu gostaria de ver ocupando mais espaço quando falamos de educação financeira.

Não precisamos ensinar todo mundo a ser especialista. Precisamos ensinar as pessoas a não ficarem perdidas

Essa talvez seja a forma mais simples de resumir toda essa conversa.

A educação financeira não precisa transformar o cidadão comum em analista de mercado.

Não precisa fazer com que todo jovem conheça dezenas de produtos financeiros antes de terminar a escola.

Não precisa transformar a vida em uma planilha.

Ela precisa oferecer uma base suficiente para que, quando uma decisão financeira aparecer, a pessoa consiga parar, compreender e escolher com mais consciência.

Isso já seria uma mudança enorme.

Porque dinheiro está presente quando escolhemos uma profissão, quando mudamos de cidade, quando formamos uma família, quando compramos alguma coisa, quando enfrentamos uma emergência e quando pensamos no futuro.

Não é um assunto que aparece apenas quando começamos a investir.

Ele está presente muito antes.

Por isso, educação financeira também precisa começar muito antes.

Talvez a grande mudança comece quando paramos de tratar a dúvida como vergonha

Eu gosto de pensar nisso porque existe uma coisa muito simples acontecendo quando alguém pergunta sobre dinheiro: aquela pessoa está tentando entender.

E perguntar é melhor do que fingir que sabe.

Se alguém não sabe o que significa uma taxa, precisa poder perguntar.

Se não entende um investimento, precisa poder perguntar.

Se não sabe organizar o salário, precisa poder procurar orientação.

Se não consegue sair de uma dívida, precisa poder falar sobre isso sem ser tratado como alguém irresponsável simplesmente por estar enfrentando uma dificuldade.

A educação começa quando existe espaço para a dúvida.

E talvez seja justamente esse espaço que ainda precisamos ampliar.

Porque ninguém precisa nascer sabendo lidar com dinheiro.

Mas todos nós precisamos, em algum momento, aprender.

E quanto mais cedo essa aprendizagem acontecer, maior será a chance de que uma decisão financeira seja tomada porque a pessoa compreendeu suas consequências — e não simplesmente porque alguém disse que era uma boa ideia.

No fim das contas, talvez a pergunta não seja apenas por que tanta gente chega à vida adulta sem saber lidar com dinheiro.

A pergunta mais profunda é: por que esperamos que as pessoas saibam administrar algo tão importante se durante boa parte da vida quase ninguém lhes ensinou como isso funciona?

Essa é uma pergunta que envolve escola, família, empresas, instituições financeiras, governo, produtores de conteúdo e também cada um de nós.

E, enquanto essa educação não fizer parte de maneira mais natural da formação das pessoas, continuarão existindo adultos inteligentes, trabalhadores e responsáveis descobrindo os fundamentos do dinheiro somente depois que ele já começou a cobrar suas próprias lições.

É justamente aí que a educação financeira pode fazer diferença.

Não prometendo riqueza.

Não oferecendo uma fórmula mágica.

Mas ensinando uma coisa muito mais importante: como compreender melhor as próprias escolhas antes de precisar aprender com as consequências delas.

imagem de planilhas de finanças.
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imagem de uma carteira com dinheiro guardado.
imagem de uma carteira com dinheiro guardado.
imagem de um casal tentando organizar suas contas mensais.
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imagem de um pai ensinando seu filho a entender sobre o valor do dinheiro.
imagem de um pai ensinando seu filho a entender sobre o valor do dinheiro.
imagem mostra jovens como o futuro do nosso país.
imagem mostra jovens como o futuro do nosso país.